A Caixa Econômica Federal confirmou que deverá lançar, até o fim de novembro, sua própria plataforma de apostas esportivas online. A chamada “bet da Caixa” tem como objetivo recuperar parte da arrecadação perdida com a queda nas loterias tradicionais e disputar espaço com as grandes casas de apostas já consolidadas no país.
Segundo o presidente da Caixa, Carlos Vieira, a previsão é que o novo sistema movimente entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões já em 2026. “Queremos competir com as plataformas privadas e resgatar a participação da Caixa nesse segmento”, afirmou, em entrevista ao Money Times.
O anúncio, no entanto, causou forte reação negativa, especialmente porque o governo federal havia sido um dos principais críticos do mercado de apostas, tema central da CPI das Bets concluída recentemente no Senado. O relatório final da comissão pediu a responsabilização de empresas e influenciadores por estímulo ao jogo e destacou os impactos sociais do vício em apostas — principalmente entre as famílias de baixa renda.
A senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), relatora da CPI, apontou que 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas apenas em 2024, de acordo com dados do Banco Central. “Muitos apostadores estão deixando de pagar contas básicas, comprar alimentos e remédios para manter o hábito de jogar”, afirmou.
Levantamentos da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) indicam que 23% dos apostadores deixaram de comprar roupas para apostar, enquanto 19% cortaram gastos em supermercado e viagens. Já o Instituto Locomotiva aponta que 52% dos jogadores redirecionaram para as bets o dinheiro que antes ia para a poupança.
A decisão de criar uma “bet estatal” foi classificada por críticos como uma “gafe estratégica” do governo. Para analistas, o lançamento não apenas contradiz o discurso adotado durante a CPI, mas também legitima a prática que o próprio governo prometeu combater.
O caso reacende o debate sobre o papel do Estado na exploração de jogos de azar e a responsabilidade social das estatais. Enquanto o governo defende a iniciativa como uma forma de “recuperar mercado”, opositores afirmam que a medida é, nas palavras de um parlamentar, “uma forma institucional de chamar o povo de otário”.










