Outro dia uma leitora me escreveu uma mensagem longa, generosa, contando que um texto meu tinha ajudado ela numa fase difícil. Li a mensagem duas vezes, e a minha primeira reação, antes de qualquer gratidão, foi pensar “ela deve estar exagerando”. Não desconfiei da sinceridade dela. Desconfiei do meu próprio mérito. Essa é uma habilidade que eu desenvolvi com anos de prática: pegar um elogio bonito e imediatamente encontrar um jeito de diminuir o tamanho dele antes que ele me alcance de verdade.
Reparei que faço isso o tempo todo, em escalas diferentes. Alguém elogia a coluna, eu respondo “ah, foi mais sorte de tema”. Alguém fala que o livro emocionou, eu já emendo um “mas ainda tem coisa pra melhorar”. É um reflexo treinado, só que em vez de defender gol eu defendo elogio, e olha que eu nem sei se isso é modéstia de verdade ou só desconforto disfarçado de modéstia, porque a sensação física é a mesma: uma vontade quase física de sair correndo daquele momento antes que ele grude. E eu já caí dentro de um bueiro porque recebi uma cantada na rua. Foi reflexo misturado com distração. A mulher que me cantou até parou o carro pra me ajudar a sair de dentro do buraco, coitada.
Fui pensar de onde vem isso, e cheguei numa suspeita simples: eu, e provavelmente muita gente, treinamos a vida inteira pra aguentar crítica. Sabemos ouvir “isso não ficou bom”, processar, corrigir, seguir em frente. Mas ninguém nos ensinou o equivalente pra elogio. Ninguém treinou a gente a ouvir “isso me tocou” sem sair procurando o “mas” que devia vir depois. Crítica a gente processa. Elogio a gente foge.
Não vou fingir que resolvi isso lendo um livro de autoajuda ou repetindo frase de espelho, porque não resolvi. Mas comecei um exercício pequeno, quase ridículo: quando alguém elogia alguma coisa minha, eu respiro antes de responder, e tento dizer só “obrigado” sem completar com nenhuma desculpa embutida. Às vezes funciona. Na maioria das vezes ainda escapa um “ah, mas”. É um músculo novo, e músculo novo dói.
E desconfio que não sou o único com essa dificuldade específica, a de receber sem desconto, sem justificativa, sem devolver o elogio automaticamente pra aliviar o próprio desconforto. É um músculo que eu ainda mal comecei a treinar. Mas a mensagem daquela leitora, na segunda leitura, eu já consegui deixar entrar sem cortar pela metade. Então por hoje eu só vou dizer: obrigado.
Enrico Pierro é escritor e colunista, autor de duas da manhã. Leia outras crônicas em enricopierro.com.br










