Pesquisa aponta para aumento de jovens procurando ajuda contra dependência em apostas

Relatório do IBICT aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets em 2024.

Dados apresentados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), referentes a 2021, apontam que uma em cada cinco pessoas começou a apostar em jogos online até os 11 anos. A proporção chega a 78% a partir dos 12 anos.

No Brasil, uma pesquisa divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação ouviu 1.912 estudantes dos ensinos Fundamental e Médio. Entre os entrevistados, 9,5% disseram ter feito a primeira aposta aos 11 anos. Quase metade dos estudantes entrevistados do 3º ano do Ensino Médio afirmou já ter apostado.

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) também identificou canais voltados ao público infantil que exploram a falta de maturidade financeira de crianças e adolescentes para promover apostas ilegais.

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Segundo a psicologa Mariana Kehl, da Sociedade Brasileira de Psicologia, o desenvolvimento cerebral ajuda a compromeender a maior vulnerabilidade dos jovens aos estímulos provocados pelas apostas.

Segundo ela, enquanto os mecanismos ligados ao prazer e à dopamina são fortemente estimulados, áreas responsáveis pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em amadurecimento durante a juventude.

“O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ele, em contrapartida, ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, explica.

A facilidade de acesso às plataformas pelo celular também aumenta a exposição. Para pessoas com comportamento compulsivo, a possibilidade de apostar a qualquer momento pode dificultar a interrupção do ciclo.

Relatório do IBICT aponta que pelo menos 24 milhões de brasileiros fizeram apostas em bets em 2024. Segundo o levantamento, quase metade ficou endividada.

Gastos com apostas afetam acesso à faculdade

Os efeitos financeiros das bets também chegam à educação. Pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) aponta que 34% dos entrevistados disseram que precisariam deixar de gastar com apostas para conseguir iniciar uma graduação em 2026.

Entre pessoas que já cursavam o Ensino Superior, 14% afirmaram ter atrasado mensalidades ou trancado o curso em razão dos gastos com apostas.

O levantamento também identificou que 34% deixaram de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado. Outros 33% disseram ter deixado de gastar com academia ou atividades físicas.

Para o diretor-geral da ABMES, Paulo Chanan, os números mostram que, para parte dos jovens, os recursos direcionados às apostas interferem em decisões relacionadas à formação educacional. Ele ressalta, porém, que os resultados não devem ser generalizados para todos os jovens.

Novas regras buscam proteger crianças e adolescentes

A proteção de menores no ambiente digital também ganhou novas regras. Sancionado em setembro de 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) entrou em vigor em março de 2026.

Entre as mudanças estão mecanismos mais rigorosos de verificação de idade. Menores de 18 anos não podem fazer apostas online, enquanto menores de 16 anos precisam estar vinculados a responsáveis para utilizar redes sociais.

O estatuto também proíbe o acesso de menores às chamadas loot boxes, caixas de itens aleatórios pagos presentes em determinados jogos.

Segundo o advogado especialista em direito digital Felipe Moreira, uma das principais mudanças está na responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado.

A psicóloga Mariana Kehl também alerta para a publicidade feita por influenciadores digitais. Segundo ela, crianças e adolescentes podem interpretar esse tipo de conteúdo como uma recomendação pessoal, e não necessariamente como publicidade.

“Quando o anúncio vem na voz de um influenciador que esse jovem acompanha diariamente, ele não é processado como publicidade. Ele é processado como uma recomendação de alguém de confiança”, afirma.

Onde procurar ajuda

Os relatos mostram que a compulsão por apostas pode provocar endividamento, conflitos pessoais e impactos na saúde mental. O Jogadores Anônimos mantém grupos de apoio para pessoas que enfrentam problemas relacionados ao jogo.

Em situações de sofrimento emocional intenso ou pensamentos suicidas, também é possível procurar atendimento nos serviços públicos de saúde. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional pelo telefone 188, gratuitamente, 24 horas por dia.

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