O Tribunal Superior Eleitoral colocou a inteligência artificial no centro do debate eleitoral. Ao abrir audiências públicas para discutir as minutas das resoluções das Eleições Gerais de 2026, o TSE sinaliza que o uso de tecnologia em campanha deixou de ser um detalhe operacional e passou a ser um tema estrutural do processo democrático.
A iniciativa não surge do nada. Ela é resposta direta às transformações recentes no modo de fazer campanha e à dificuldade crescente de distinguir comunicação legítima de manipulação digital.
O que está em discussão
As minutas em debate tratam de três eixos centrais: ilícitos eleitorais, propaganda e proteção do eleitor frente à desinformação. Em todos eles, a inteligência artificial aparece como fator de risco e, ao mesmo tempo, de reorganização das regras.
A proposta do TSE não é proibir o uso de IA, mas estabelecer limites claros. Conteúdos gerados artificialmente devem ser identificados. Simulações que criem falas, imagens ou comportamentos inexistentes passam a ser vedadas. Deep fakes, independentemente de favorecer ou atacar candidatos, seguem proibidos.
Na prática, isso significa que um vídeo bem editado, um áudio “convincente” ou uma imagem aparentemente inofensiva pode se transformar em prova de ilícito eleitoral. O que antes rendia engajamento agora pode gerar sanção, retirada de conteúdo e questionamento judicial imediato.
Comunicação automatizada não é comunicação enganosa
Outro ponto sensível é o uso de chatbots, avatares e sistemas automatizados. A tendência é permitir automação informativa, mas barrar qualquer tentativa de simular interação humana real, especialmente quando o eleitor acredita estar falando com o próprio candidato.
Na prática, isso muda a forma como campanhas estruturam atendimento digital, disparos de mensagem e presença em redes sociais.
O papel das plataformas digitais
As minutas também reforçam o papel das redes sociais no enfrentamento à desinformação. Plataformas passam a ter obrigação de agir com mais rapidez na remoção de conteúdos ilegais, antidemocráticos ou claramente manipulados, mesmo sem ordem judicial.
Esse ponto altera o jogo. Estratégias baseadas em exagero, ambiguidade ou choque constante passam a carregar risco operacional e jurídico elevado.
O efeito prático para as campanhas
A mensagem do TSE é clara: criatividade não pode ser confundida com manipulação. Campanhas que não integram comunicação, jurídico e estratégia desde o início tendem a enfrentar problemas ainda na fase pré-eleitoral.
Planejar discurso, imagem e presença digital sem considerar as resoluções em construção é começar atrás.
Antecipar é competir melhor
As audiências públicas não são um rito burocrático. São um aviso antecipado. As regras estão sendo escritas agora, enquanto muitos ainda pensam apenas em discurso e visibilidade. Em eleições cada vez mais vigiadas, não vence quem grita mais. Vence quem erra menos.
Gabriel de Oliveira é assessor de comunicação e marketing político. Atua no planejamento estratégico de campanhas, gestão de imagem pública e comunicação institucional em ambientes de alta exposição e risco jurídico.









