Testemunhas de Jeová passam a permitir uso do próprio sangue em cirurgias, mas veto a transfusões continua; entenda proibição e nova regra

Mudança amplia autonomia dos fiéis em procedimentos médicos, sem alterar doutrina sobre a 'santidade do sangue'

As Testemunhas de Jeová atualizaram suas diretrizes e passaram a permitir que fiéis utilizem o próprio sangue em tratamentos médicos, desde que ele seja previamente retirado e armazenado. A mudança se aplica, por exemplo, a cirurgias programadas, mas mantém a proibição de transfusões com sangue de outras pessoas.

O anúncio foi feito por Gerrit Losch, um dos líderes do grupo religioso, que destacou a autonomia individual nas decisões.

— Cada cristão deve decidir por si mesmo como seu sangue será usado em cuidados médicos e cirúrgicos — afirmou.

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Na prática, a nova orientação abre espaço para técnicas médicas em que o próprio paciente doa sangue antes de um procedimento e esse material é conservado para uso posterior. Isso pode ocorrer, por exemplo, em operações agendadas, nas quais há tempo para coleta prévia. O uso permanece restrito ao próprio sangue do paciente, sem envolvimento de doadores externos.

Apesar da flexibilização, a base doutrinária segue inalterada. Um porta-voz reforçou à BBC que a crença fundamental do grupo “a respeito da santidade do sangue permanece inalterada”. A posição se apoia em interpretações bíblicas que, segundo o site oficial do grupo, “ordenam a abster de sangue”.

Por que é proibido?

A recusa ao uso de sangue está ligada à interpretação de textos do Velho e do Novo Testamento, nos quais o sangue é considerado sagrado e associado à vida.

Entre os trechos citados estão:

  • “Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer.” (Gênesis 9:4)
  • “Não deveis comer o sangue de qualquer tipo de carne, porque a alma de todo tipo de carne é seu sangue. Quem o comer será decepado da vida.” (Levítico 17:14)
  • “Abstenham-se do sangue.” (Atos 15:20)

O movimento reúne cerca de nove milhões de seguidores no mundo, sendo aproximadamente 900 mil no Brasil, segundo dados informados por seus líderes, e é conhecido pelo evangelismo de porta em porta.

Críticas e impactos legais

A mudança gerou críticas de ex-integrantes. Mitch Melon, ex-membro nos Estados Unidos, avaliou que a nova diretriz “não vai longe o suficiente”.

— Se uma Testemunha de Jeová passar por uma emergência médica com perda significativa de sangue, ou se uma criança precisar de múltiplas transfusões para tratar certos tipos de câncer, essa mudança de política não lhes concede total liberdade de consciência para aceitar intervenções potencialmente vitais que envolvam sangue doado — afirmou, em entrevista ao Los Angeles Times.

O tema também tem repercussões judiciais. Em dezembro, um tribunal em Edimburgo analisou o caso de uma adolescente de 14 anos que se recusou a receber transfusão por motivos religiosos. Diante do risco de morte após cirurgia, autoridades de saúde pediram autorização para realizar o procedimento.

A juíza Lady Tait autorizou a medida, afirmando que decidiu “dando o devido peso às suas opiniões”, mas considerando o benefício potencial da transfusão.

No Brasil, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em setembro de 2024, que Testemunhas de Jeová têm o direito de recusar transfusões com base em suas crenças. A Corte também determinou que o Sistema Único de Saúde (SUS) deve oferecer alternativas terapêuticas, inclusive fora do local de residência do paciente.

Dentro da religião, a aceitação voluntária de transfusão de sangue, sem arrependimento, pode levar à desassociação — medida comparada à excomunhão — que resulta no afastamento social do indivíduo em relação aos demais membros.

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