Mulheres idosas lideram mobilização para combater abstenção

Mulheres idosas lideram mobilização para combater abstenção

Mesmo desobrigadas de comparecer às urnas pela Constituição de 1988, milhares de brasileiras com mais de 70 anos têm transformado o direito cívico em instrumento de mobilização comunitária. No país, o contingente de eleitores nessa faixa etária alcança cerca de 16 milhões de pessoas, o equivalente a 10,6% do eleitorado, grupo que historicamente registra índices elevados de abstenção, mas que vem mudando esse cenário recente.

Queda na abstenção e o movimento nas famílias

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) compilados pelo Movimento Voto 70+ apontam que a taxa de abstenção entre eleitores com mais de 70 anos caiu quase 10 pontos percentuais no primeiro turno, recuando de 58,8% em 2022 para 49,1% em 2026. Com foco em manter essa presença em alta, a iniciativa apartidária estruturou a campanha Vovó Vota, cujo objetivo principal é unir gerações ao estimular netas a acompanharem suas avós no dia do pleito, inclusive lembrando que quem não votou na primeira etapa pode comparecer normalmente à segunda.

Na comunidade rural de Ludovico, em Lago do Junco (MA), a quebradeira de coco babaçu Maria Alaídes Alves de Souza, de 71 anos, atua ativamente para convencer outras mulheres de sua região a comparecerem às urnas. Liderança de um movimento interestadual da categoria — atividade que reúne mais de 300 mil trabalhadoras no Maranhão, Tocantins, Piauí e Pará —, ela prioriza temas como o combate às mudanças climáticas.

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“A gente busca motivar explicando que é muito importante a pessoa registrar o seu voto. Ninguém pode desanimar”, conta Maria, que tem sete filhos e sete netos.

“O voto para mim é orgulho. Voto pela manutenção de direitos e pela democracia”.

Superação do medo e apoio de filhos e netos

Em diferentes partes do país, o incentivo da família tem sido crucial para que aposentadas retomem a rotina de votação. Em Olinda (PE), a professora aposentada Maria José Cantarelli, de 80 anos, estava sem votar há 12 anos e temia o acirramento do clima político nas ruas:

“Há ofensas e agressões que fazem com que a gente tenha medo. Existe muita violência nas ruas e os ânimos estão muito acirrados”, lembra.

Após conversar com familiares, ela instalou o aplicativo e-Título no celular e decidiu voltar às urnas acompanhada pela neta Maria, de 19 anos.

Decisão semelhante foi tomada por Maria Albino Costa, de 85 anos, residente em Orizona (GO). Ex-merendeira e trabalhadora rural que passou décadas sem poder escolher representantes durante o regime militar, ela achou o primeiro turno cansativo pelo excesso de candidatos, mas confirmou presença na rodada final:

“Mas dessa vez, é só para o cargo de presidente. Então, eu vou desta vez. Minha filha e minha neta vão me levar. Preciso garantir nossos direitos. Eu faço questão agora.”

Sua filha, a professora Sandra Oliveira, de 48 anos, utiliza a trajetória da mãe para conscientizar estudantes sobre equidade de gênero: “Eu conto histórias de minha mãe e de outras mulheres que não tiveram direitos. A gente precisa garantir nosso espaço”.

Memória histórica e busca por serviços essenciais

O engajamento das idosas também se sustenta na lembrança direta da conquista da democracia e nas demandas práticas por saúde e educação. No município de Nova Iorque (MA), Francisca Barroso Monteiro, de 84 anos, recorda que a cidadania a ajudou a garantir o estudo dos dez filhos, algo que não teve na juventude:

“Eu sempre dizia ao meu esposo que eles iam estudar. Eu não estudei porque não tive oportunidade. Mas meus filhos, sim. Por isso é muito importante votar”.

Para quem viveu a ausência de eleições diretas, comparecer à cabine eleitoral carrega forte valor simbólico. A carioca Suely Mendonça, de 79 anos, revive o período da censura e sua participação nas Diretas Já sempre que vai votar:

“É o momento em que estou me sentindo mais participante da vida do país. Sempre estudei na rede pública, do ensino básico ao ensino superior. Teve o golpe militar e eu estava estudando”.

“Eu participei das Diretas Já, o pontapé inicial da redemocratização. Eu nunca associei meu voto a um partido. Eu escolhia o candidato pelos compromissos assumidos com a gente e os que tinha lutado contra o regime ditatorial”.

Acessibilidade e regras de atendimento

Apesar do entusiasmo cívico, os obstáculos físicos persistem. No Rio de Janeiro, Prazeres Maria da Silva Antunes, de 72 anos, queixou-se de que “demorou um tempo para começarem a chamar os mais idosos”. Em São Paulo, Beatriz Cintra Labaki, de 79 anos, teve de enfrentar escadarias com o apoio do filho para conseguir votar, cobrando comprometimento dos escolhidos:

“Não adianta ser eleito e ficar sentado lá. Tem de ser atuante e gostar de trabalhar com a população”.

Normas expedidas pelo TSE determinam que a Justiça Eleitoral assegure prioridade imediata no fluxo de votação para a população idosa, evitando a permanência em filas gerais, além de exigir estruturas acessíveis que garantam deslocamento seguro e pleno exercício da cidadania.

Com informações de: Região Noroeste

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